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O uso da linguagem mitologica para se pensar sobre o feminino

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03/05/2009
por claudia floresrodrigues

Os mitos ou a criação destes estão presentes em todas as culturas, em todos os tempos desde o início da humanidade como um mecanismo de sobrevivência do homem em sua tentativa para explicar o mundo através de sua realidade interna. A linguagem mitológica com todos os seus paradoxos, vem de uma necessidade do homem de se conhecer mais: para conviver com o medo e a insegurança e explicar melhor os fenômenos naturais. Tudo que se apresentava aos olhos dos homens, era entendido como personalidades divinas. Dessa forma, o sol, a terra, a noite, os rios, as árvores eram deuses. Ménard (1885) nos fala dessas alegorias da linguagem onde cada rio era um deus e cada regato uma ninfa.. “Se num trecho eles corriam na mesma direção era porque eles se amavam.”As catástrofes, os acidentes da vida se revestiam do mesmo aspecto na narração. Na narração mitológica, os significados são muito ampliados e há complexidade em toda e qualquer aceitação e compreensão de um mito. Sabemos que um “bom leitor” é aquele que mantém a sua mente aberta para entrar na narrativa sem qualquer preconceito e racionalidade, para não destruir a realidade que o escritor está tentando criar. Vejamos: Quando Júpiter se casa com Métis (Reflexão) ele a engole e dá a luz à uma filha Minerva ( A Sabedoria Divina) que lhe sai do cérebro. Se fizermos uso de uma redução, esta é uma imagem terrível, grotesca e nada tem de encantadora ou poética. Mas por outra perspectiva, o deus nutre-se da Reflexão para gerar a Sabedoria. Mnemosine (A Memória) desposa Zeus e deles nascem as Musas (A Inspiração). O sopro divino em união com a Memória faz nascer a Inspiração. Isto só para exemplificar e ilustrar como se pode entrelaçar a linguagem mítica para falar de um determinado assunto. Se a verdade do mito segue a alguma lógica, esta é a do Inconsciente. É mais uma intuição compreensiva da realidade da qual não se necessita provas para ser aceita. Pois ela, em si, nos remete à realidade interna, o que nos dá uma noção de significado. O mito não é uma lenda. O mito não é uma mentira. Ele nos conta de nossa realidade interna e é verdadeiro para quem o vive. A narração de determinada história mítica é uma tentativa do homem em sua busca de significado sobre o qual a afetividade e a imaginação exercem grande papel. Mas normalmente quando se fala de mito ou que alguma coisa é um mito, é mais no sentido desta coisa não ter nenhum compromisso com a realidade. E na ocorrência dessas projeções, observamos todo um empenho que se resume na busca de significado, no encontro com a sombra e no restabelecimento do contato com o feminino. Nas narrações das “qualidades divinas” de uma Deusa há um movimento de trazer para a consciência algum conteúdo inconsciente: Deméter (a eterna mãe); Koré (a eterna jovem); Artémis (a eterna guerreira) ou Afrodite (a eterna amante). Estes traços do feminino atribuídos a estas Deusas simplesmente nos mostram o desconhecimento e o fascínio que eles causam ao homem desde a sua origem. Desde os mais remotos tempos, o mito grego representa o feminino como um reflexo importante de diversos aspectos da realidade e evolução que vão além dos limites do papel que a mulher tinha na sociedade grega. A Deusa Mãe representava mais especificamente a terra fecunda na qual o homem semeava e de onde retirava tudo que necessitava. Com algumas alterações na representação, a figura feminina ainda ocupava o lugar de destaque e recebia todas as honras. E como a Senhora da fertilidade e da fecundidade ela ainda reinava. Com o correr dos milênios, a imagem da Deusa ganhou novos atributos, e foi associada a diversos animais e a outras funções. Com a expansão das tribos guerreiras do continente, as culturas matriarcais foram conquistadas e um Deus Macho e guerreiro dominou o panteão. A Deusa então, assumiu o papel de mãe, esposa ou filha dele. As cidades se tornaram um espaço dos homens e dos Deuses machos; já o interior da casa, o campo, as matas, isto é, as áreas limítrofes entre o civilizado e o selvagem, eram dominados pela Deusa Mãe em suas múltiplas facetas: Afrodite, Psique, Deméter, Perséfone, Ártemis. A cada uma delas coube uma característica, uma pequena parcela do domínio da antiga Deusa Mãe. No mito de Prometeu e de Pandora, contado por Hesíodo, a mulher aparece como um "presente" dado aos homens. Semelhante às deusas ela foi moldada em suas feições recebendo ainda todos os dons divinos. E foi Hermes quem lhe pôs no coração a perfídia e os discursos enganosos, além da curiosidade. Desde então, a mulher é considerada a origem de todos os tormentos do homem. Tanto na tradição Grega quanto na Judaico-Cristã há uma tentativa de transgressão dos limites humanos e é a entidade feminina quem impulsiona o homem. Na narrativa dos Hebreus a tomada de consciência era oferecida ao homem por Eva. No mito Grego, houve primeiro uma simulação frustada pela brincadeira de Prometeu ao tentar testar o poder e a clarividência dos Deuses. Depois, o próprio Prometeu traz o fogo como presente mas os homens embevecidos com a nova condição, se julgam iguais aos deuses e provocam uma situação de serem punidos novamente. Eis que chega Pandora; linda, encantadora, mas...desastrada ( ou curiosa?) e ao abrir a caixa derrama sobre a terra todas as desgraças. E a conseqüência é a perda do Paraíso. Se não tivéssemos sido expulsos,será que cresceríamos? Ainda hoje, a visão que se tem da mulher costuma ser permeada da influência desses dois mitos. Há quem a veja como uma bênção de Deus e por outro lado, quem pense diferente. Finalmente, proponho que se pense na realidade interna expressa nos mitos. Esta linguagem simbólica usada projetivamente se resume na busca do homem pelos segredos de seu próprio eu; no encontro com a sombra e no restabelecimento do contato com o feminino. E neste clima de tensões , paradoxos e incertezas confrontamos a nós mesmos na busca pelo equilíbrio-na procura de significado onde esta anima -, tão bela quanto cheia de perfídia, nos faz crescer, tombar, chorar e rir. E, por fim, nos sabermos humanos. Bibliografia: BRANDÃO, Junito Souza - Mitologia Grega , vol. I, ed. Vozes HAMILTON, E. - A Mitologia trad. M.L. Pinheiro - Lisboa: Dom Quixote, 1983. Ésquilo, Prometeu acorrentado. Editora vozes GRIMAL, P. - Dicionário da Mitologia Grega e Romana trad. V. Jabouille - Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2ª ed., 1993. Hesíodo. Os trabalhos e os dias. Tradução de Mário da Gama Khuri Hesíodo, Teogonia. Tradução de Mário da Gama Khuri. VERNANT, J.-P - O universo, os deuses, os homens - São Paulo: Cia. das Letras, MÉNARD, René. – Mitologia Greco-Romana, vol. I, Fittipaldi Editores Ltda, São Paulo, 1985 MEUNIER, Mário. Nova Mitologia Clássica. -: Ibrasa,1976., 2000. KERÉNYI, K. - Os deuses gregos trad. O.M. Cajado - São Paulo: Cultrix, 1993. KERÉNYI, K. - Os heróis gregos trad. O.M. Cajado - São Paulo: Cultrix, 1993. KHURY, Mário da G. Dicionário de Mitologia Grega e Romana. Rio de Janeiro: Zahar, 1990.

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