Língua Portuguesa como nunca antes navegada
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ACORDO OU DESACORDO ORTOGRÁFICO? por PROF. ALEX SWANDER(PREMIADO PELA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS,Prof. da Rede pública do Rio de Janeiro,Prof. Substituto da UERJ,Criador da PÓS-GRADUAÇÃO lato sensu EM LINGUISTICA APLICADA AO ENSINO DA UNIVERSO)

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10/05/2009
por Alex Swander

ACORDO OU DESACORDO ORTOGRÁFICO?

                                          Por:

Professor Alex Swander (Premiado pela ABL – Academia Brasileira de Letras (2000 / 2001 e 2007), Professor universitário, Servidor Público, Pesquisador, Revisor de textos, autor de “Aulas de Latim” e do CD – Metodologia Científica – teoria e prática, Modelos de Trabalhos, Professor substituto da UERJ – Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Ex-Coordenador e Criador do Programa de Pós-Graduação lato sensu em Lingüística aplicada ao Ensino – UNIVERSO, Membro do CiFEFiL – Círculo Fluminense de Estudos Filológicos e Linguísticos)

Este texto nasceu de um artigo por mim publicado na REVISTA AMÉRICA (2005-2006). A ele acrescento algumas informações pertinentes, a fim de que o título supracitado encontre uma corroboração teórica e não o demérito. SUGIRO AS SEGUINTES LEITURAS QUE , CERTAMENTE, SÃO DE EXTREMA RELEVÂNCIA EM RELAÇÃO AO TEMA ACERCA DO QUAL ME PROPONHO: NO ENDEREÇO www.paratexto.com.br, na pasta NOVO ACORDO ORTOGRÁFICO, ENCONTRAM-SE IMPORTANTES ARTIGOS DA DOUTORA NÍLVIA PANTALEONI, DO “MEU ETERNO MESTRE E AMIGO” PROFESSOR DOUTOR JOSÉ PEREIRA DA SILVA – “A NOVA ORTOGRAFIA DA LÍNGUA PORTUGUESA”. Definitivamente, não falamos a mesma língua de Portugal. No mundo lusofônico, há inúmeras peculiariadades lingüísticas. Só para que se tenha uma idéia, o próprio português falado no Brasil é marcado por variações lingüísticas, quer a nível geográfico, quer a nível sociocultural. Se formos para o Sul do Brasil, por exemplo, nos depararemos com um marcador discursivo bem diferente dos que estamos habituados a ouvir no Rio de Janeiro: Ba, Tche! Certamente, uma forma abreviada de Barbaridade, Tchê! Além disso, o T e o D não são articulados como no Rio de Janeiro, onde verificamos uma pronúncia “chiada” para palavras como Tia e Dia. E o S. Ora, é outra ocorrência que merece a nossa atenção, haja vista que o chiado habitual do carioquês não se verifica. Com efeito, tais exemplos têm uma explicação que remonta à época em que a Real Família Portuguesa veio para o Brasil. A população que vivia onde hoje é o Rio de Janeiro procurou “imitar” “o jeito” dos nobres falarem. Daí, o “chiado” que se verifica em tantas construções lingüísticas. Em termos de Brasil ainda verificamos exemplos da oralidade, onde não se encontra codificado o R final de verbos no infinitivo. Assim, as pessoas (inclusive letrados de Minas Gerais) articulam: CANTÁ, VENDE, PARTI, ENCONTRA, FALA etc. Algo semelhante acontece com o S final indicativo de plural. Então, ouvimos, em rodas finas de bate-papo, pessoas em São Paulo deliberadamente suprimindo este morfema. E o “rotacismo”? Muitas são as pessoas que usam a variante inculta, segundo a gramática normativa. Por isso, a troca de fonemas em palavras como: FRAMENGO, INGRÊS, CRÁUDIA etc. Uma explicação bem consistente para tais casos é “a Lei do Menor Esforço”, que propala a concepção de que diante de duas formas de mesmo valor lingüístico, prevalece aquela que demanda menor esforço para ser articulada. Assim, por extensão teórica do que estamos tratando em relação ao uso, PASSAGEM se transforma em PASSAGE; ÔNIBUS, vira ÔNIBU; QUINHENTOS é codificado como QUINHENTO; TOCANDO se converte em TOCANO (quebra do gerúndio), NÃO VOU vira NUM VÔ; TOCANDO se desfaz em TOCANO; PORQUÊ cede lugar a PURQUÊ, ESTOU FAZENDO se transforma em ESTÔ FAZENO etc. Se compararmos o nosso português ao de Portugal, veremos que a própria sistemática norteadora de construção das locuções verbais em nosso idioma é diferente da orientação do uso em Portugal, haja vista que, por exemplo, existe um sintagma pronominal na posição mesoclítica, evidenciado em construções como: ESTOU A FAZER, CHEGAMOS A CANTAR etc. Os exemplos acima apresentados são de natureza fonética, posto que estão relacionados à articulação das palavras. Porém, encontramos, ainda, exemplos de variações de natureza morfossintática no que se refere à ordenação das palavras em uma oração na Língua Portuguesa falada no Brasil. O bahiano, por exemplo, se utiliza da forma negativa pós-verbal (VOU NÃO) enquanto o carioca é enfático ao utilizar-se da negativa dupla (EU NÃO VOU NÃO). Quanto à colocação pronominal, os exemplos são vários. A Gramática Normativa é bem reducionista ao “descrever” construções do tipo: O LIVRO É PRA MIM LER). Ora, é um erro! – Diz a Norma culta. É um solecismo; um erro de colocação pronominal! Esquece-se, porém, a mesma Norma de, de fato, descrever o que acontece. O usuário está, na verdade, partindo de uma unidade paradigmática, isto é, ele sabe, em seu “background” (no caso, em seu “arsenal lingüístico”) que O LIVRO É PRA MIM. Ora se O LIVRO É PRA MIM, ele é PRA MIM LER. O que o usuário não faz é opor o uso pronominal oblíquo ao uso pronominal do caso reto. Rastreando o passado lingüístico, a origem de nossa língua está no Latim. Neste sentido, cabe um questionamento. Afinal, o Latim é ou não uma língua morta? Cientificamente, entende-se que a conceituação “língua viva” é um “rótulo”, segundo o qual só é considerado vivo o sistema lingüístico que apresenta, no mínimo, cem mil usuários. O que é fácil de entendermos, posto que a condição proeminente para tal classificação é a possibilidade de o usuário poder transformar e adaptar o sistema para as suas necessidades de uso. Por outro lado, entende-se que “língua morta” é a classificação adotada por aquele sistema lingüístico que não deixou vestígio ao longo do tempo, isto é, não tem, no caso, cientificamente, uma fonte confiável para assegurar a sua existência nem a perpetuação do mesmo. E, além disso, não havendo usuários que professem tal língua, esta não pode ser considerada como viva. O Latim, por exemplo, embora seja a língua oficial do Vaticano, não pode ser considerado“vivo”,mas por estar disseminado nas línguas neolatinas e, portanto, ter deixado vestígios na morfologia e na prosódia, não pode ser classificado como língua morta. A este aspecto, assomam-se outros mais; vejamos: o latim se encontra incorporado na estrutura morfológica de inúmeras palavras da Língua Portuguesa (vejamos, por exemplo, os superlativos paupérrimo e boníssimo, este derivado de bom que, em Latim, era bônus; aquele, derivado de pobre que, em Latim, era pauper). Na Química, também encontramos a Língua latina na própria simbologia dos elementos químicos. Exemplos: prata (Ag), em latim, argentum. Ouro (Au), em latim, aurum. Encontramos o Latim em epígrafes de Teses e trabalhos cientícos em geral, o que pressupõe erudição além de constiruir virtualmente um gongorismo na adiposidade de um tom eloqüente. Não deixemos de mencionar o Vaticano que guarda em seu acervo inúmeros documentos professados em Língua latina. Diante de tantas ocorrências, como classificar o Latim? Bem, face aos fatos que enumeramos, o mais correto seria classificar a Língua Latina como uma “língua clássica”, por ter servido de esteio para as línguas neolatinas. Infelizmente, o analfabetismo científico de alguns “pseudo-lingüístas”, faz com que seja cômodo utilizar o rótulo língua morta, o que é problemático e contribui cada vez mais para o empobrecimento do saber global em Língua Portuguesa. Além do mais, citando o célebre lingüista Guy Deutscher, “a linguagem é um recife de metáforas mortas”. Ora, um recife abriga inúmeros organismos sobre uma camada fóssil. Esses organismos um dia serão também reduzidos à matéria inerte e servirão de suporte para outras estruturas. Em termos lingüísticos, tal suporte é concedido pelas metáforas desgastadas. A gíria popozuda é um caso que merece uma certa “atenção”. Ora, os “funkeiros” redimensionaram o uso desta palavra; no Português arcaico, dizia-se que uma embarcação que estivesse afundando pela popa era “popozuda”. Ora, se fizéssemos uma leitura ipsis literis desta palavra nos dias atuais, ao invés dela designar a idéia de “uma mulher que apresenta uma região glútea avantajada”, seria exatamente o contrário; seria “mulher de glúteos flácidos (caídos). A expressão inglesa de baixo calão fuck, por sua vez, remontando a Idade Média, veremos que se refere ao seguinte contexto: quando um plebeu se casava, para desposar sua amada, era necessário haver a autorização expressa do rei que, uma vez deferindo-a, por sua ordem, um emissário afixava uma placa na casa do casal com a seguinte sigla: F.U.C.K. (fornication under consentiment of the king). Segundo o Funcionalismo Lingüístico norte-americano, as palavras nascem motivadas iconicamente e a arbitrariedade é uma conseqüência do desbotamento semântico e do desgaste fonológico, o que explica, por exemplo, a palavra ROMARIA. Antes, designava uma peregrinação à Roma. Hoje, qualquer deslocamento religioso para algum lugar. Notemos que, embora tenha ocorrido um significativo desgaste semântico na palavra, permaneceu, contudo, o sentido atrelado à religião. Tomemos, ainda, por exemplo, as seguintes palavras: idiota, radical, catarse. No caso da primeira, etimologicamente, designava alguém muito compenetrado em si mesmo, mas certamente nos dias de hoje, ninguém gostaria de ser chamado assim, pois seria uma ofensa, haja vista que o sentido atual dessa palavra é disfórico ; a palavra “radical” que designava alguém de temperamento investigativo, uma vez ouvida nos dias atuais, é facilmente entendida como sendo o mesmo que austero; catarse, por sua vez, deriva do grego e significava, na Antiguidade, inocular uma substância no organismo, a fim de que se possa excretar impurezas. De certa forma, ainda que não mais uma palavra restrita à área médica, “catarse” continua a ter uma certa proximidade com o seu sentido original, haja vista que, segundo o viés dos cânones da Literatura, uma das funções literárias é provocar “catarse”, isto é purgação e alívio emocional.Se a palavra metáfora que em grego significava transporte não operasse como foi descrito acima, não haveria o suporte para outros sentidos e tampouco para outras palavras, até porque a evolução lingüística sempre esteve vinculada ao uso da palavra. Quem poderia imaginar que dos étimos latinos VOS CE TE MERSUM surgiria a palavra VOSSA MERCÊ que hoje encontra-se tão abreviada na forma CE? Bem, o homem é o reflexo dos eu pensamento e a sua linguagem é produto de toda essa atividade. A Língua Portuguesa pode ser inculta e bela como um dia o grande poeta escreveu, mas é a nossa Língua – inculta? Bela? Sem dúvida! Particularmente, penso que o ACORDO ORTOGRAFICO “peca” pela UNILATERALIDADE. Em outras palavras, algumas questões de fato relevantes, como por exemplo, a imposição do vasto sistema de flexões verbais do PORTUGUES EUROPEU EM RELAÇÃO AO PORTUGUES BRASILEIRO (qual é a comunidade linguistica brasileira que usa TU E VÓS?). Ora, somos obrigados a ensinar um português CASTIÇO bem distante da realidade daquilo que é de fato falado e escrito no Brasil, contrariando a máxima linguistica de que A SINTAXE EMERGE NÃO DOS PRINCÍPIOS, MAS DO USO. Creio que tais impasses permanecerão por muito tempo. Em parte, certamente, pelo fato de que A NOSSA ACADEMIA SE COMPORTA NÃO COMO CENTRO DE EXCELENCIA DE UM PAÍS LIVRE, MAS COMO CENTRO DE EXCELENCIA DE UMA EX-COLÔNIA DE PORTUGAL.

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