Língua Portuguesa como nunca antes navegada
ParatextoIniciação ao texto acadêmico > Leitura e Produção do Texto Acadêmico: uma reflexão

Leitura e Produção do Texto Acadêmico: uma reflexão

'

13/05/2009
por Nílvia Pantaleoni

Leitura e Produção do Texto Acadêmico: uma reflexão

Profa. Dra. Nílvia Pantaleoni PUCSP

Como sabemos, existem diferentes concepções teórico-metodológicas sobre os processos de leitura e de produção textual. O enfoque formal encara o texto como produto. Nesse sentido, a escrita é considerada suporte da fala, o texto, linear e a significação, unívoca. Já o enfoque cognitivista postula a produção e a leitura do texto na perspectiva do processamento cognitivo que se faz por meio da interação das competências do leitor/autor. Aqui, atenta-se para o papel das capacidades e as estratégias (meta)cognitivas empregadas durante o processo de significação numa dimensão textual, enfatizando-se que o conhecimento prévio de cada leitor é diferenciado, sendo, portanto, diferenciados os resultados de sua leitura e de sua escrita. Finalmente, o enfoque enunciativo discursivo, numa perspectiva pragmática, considera essencial a noção das condições de produção e de leitura dos textos e postula que o processo de significação leva em consideração a heterogeneidade, destacando a intertextualidade e a polifonia dos textos.

Para uma reflexão a respeito do texto acadêmico, interessa-nos dois enfoques: o cognitivista e o enunciativo discursivo. O primeiro, por levar em consideração a interação das competências necessárias quando lemos ou escrevemos; o segundo, por valorizar as condições de produção tanto na instância da leitura quanto na da escrita, pois conhecer quais são as condições específicas da esfera de circulação do discurso científico é essencial para quem faz pesquisa. Este texto restringe-se ao primeiro enfoque, mesmo considerando a importância do segundo que oportunamente será objeto de nossa reflexão.

O processamento cognitivo do texto, segundo Kleiman (1995), é a atividade pela qual as palavras, unidades discretas, distintas, são agrupadas em unidades, ou fatias maiores, também significativas, chamadas constituintes da frase. À medida que as palavras são percebidas, a nossa mente está ativa, ocupada em construir significados, e um dos primeiros passos nessa atividade é o agrupamento em frases com base no conhecimento gramatical dos constituintes: o tipo de conhecimento que determina que artigo precede nome e este se combina com adjetivo, assim como verbo com nome e assim sucessivamente. Este conhecimento também permitirá a identificação de categorias, e das funções desses segmentos ou frases, permitindo que o processamento continue até se chegar à compreensão. Nesse sentido, o conhecimento lingüístico desempenha um papel central.

Não se discute que para fazer pesquisa, principalmente em Ciências Humanas, necessita-se do que Coste (1997) denomina “leitor proficiente”. Não está em questão saber se gostamos ou não de ler, o que importa é que nosso perfil se encaixe no modelo de leitor que:

1.

libertou-se dos hábitos escolares de uma leitura palavra por palavra (ou sílaba por sílaba) e utiliza plenamente a capacidade perceptiva que lhe permite, por fixações sucessivas, apreender de um só lance os blocos gráficos mais importantes;

2.

não precisa de intermediário sonoro ou quase sonoro (leitura em voz alta ou leitura silenciosa com subvocalização), mas consegue estabelecer correspondências diretas entre significantes gráficos e sentidos;

3.

é capaz de antecipar morfossintaticamente, lexicalmente, semanticamente o que vai ou pode seguir no fio do texto, tendo, portanto, um poder de previsão;

4.

dispõe de estratégias de leitura que permitem acelerar e melhorar o funcionamento do ato lexical, utilizando-se das possibilidades de antecipação e alternando tensões e desconcentrações, que autorizam uma melhor apreensão de informação;

5.

sabe “deslinearizar” sua leitura para construir hipóteses sobre o sentido a partir de uma varredura do texto, de uma exploração que permite uma coleta de índices para interpretar, podendo, em seguida, confrontar as hipóteses semânticas com outros elementos do texto, para confirmação, ajuste, desenvolvimento etc...

6.

finalmente, utiliza-se de um leque de modos de leitura de acordo com os textos que pratica e os projetos que tem, sendo capaz de “engatar” tal ou tal tipo de leitura, pois ele tem o controle de uma “palheta de opções”.

Na mesma linha, Kleiman (1995) trata do conhecimento prévio como tudo aquilo que o indivíduo adquiriu durante toda sua vida e que pode, no caso da leitura e da produção do texto, ser categorizado em níveis de conhecimentos que interagem, permitindo que o leitor construa sentidos, chegando finalmente a uma compreensão do material que está lendo. Os conhecimentos (competências) empregados, no processo de interação, são o lingüístico, o textual e o de mundo, ou enciclopédico.

O conhecimento lingüístico é o conhecimento implícito, não verbalizado, nem verbalizável, na grande maioria das vezes, que faz com que falemos português como falantes nativos. Este conhecimento abrange os níveis: fonético, morfossintático, semântico e pragmático. O nível fonético diz respeito ao conhecimento que temos de como pronunciar português; o nível morfossintático é aquele que permite que, pelo fato de conhecer as palavras do português, também saibamos organizá-las convenientemente; o semântico é o que se refere aos significados que as palavras e as expressões possuem; enquanto que o pragmático é o nível de conhecimento lingüístico que temos sobre o uso da língua em situações reais.

O conhecimento textual – conjunto de noções e conceitos sobre o texto faz parte também de nosso conhecimento prévio e desempenha um papel importante na compreensão de textos. Por meio deste conhecimento, temos condições de classificar o texto do ponto de vista de suas seqüências ou tipos textuais. estrutura. Um mesmo texto pode apresentar, por exemplo, seqüências ou tipos textuais narrativos e expositivo/argumentativo.

As seqüências ou tipos textuais narrativos identificam-se pelas categorias: personagens, cenário ou orientação, complicação e resolução. Caracterizam-se pela marcação temporal cronológica e pela causalidade. As ações quem as pratica? por que são praticadas? onde? como? são essenciais.

Nas seqüências ou tipos textuais expositivo/argumentativos, o tempo e os personagens não desempenham um papel importante porque a ênfase temática está nas idéias e não nas ações. Nesse sentido, estão organizadas em componentes ligados entre si por diversas relações lógicas: premissa e conclusão, problema e solução, tese e evidência, causa e efeito, analogia, comparação, definição e exemplo. Estes componentes são, normalmente, recursivos, isto é, sucedem-se durante toda a extensão do texto. Não podemos deixar de mencionar as seqüências ou tipos textuais descritivos que, raramente se apresentam independentes. No caso do texto acadêmico, acreditamos que haja uma ocorrência maior do tipo textual expositivo/argumentativo.

O conhecimento de mundo ou conhecimento enciclopédico pode ser adquirido tanto formal quanto informalmente. Este tipo de conhecimento prévio abrange desde o domínio que um cientista tem sobre a sua especialidade até o conhecimento de fatos como “O Brasil localiza-se abaixo da linha do equador”, “A galinha é uma ave”, “O ônibus é um transporte coletivo”, “No cinema geralmente cobra-se um ingresso”. Para haver compreensão, durante a leitura, aquela parte do nosso conhecimento de mundo que é relevante para a leitura do texto, deve estar ativada, isto é, deve estar num nível ciente, e não perdida no fundo da memória.

No enfoque cognitivista, duas atividades de natureza metacognitiva são relevantes para a compreensão de texto escrito o estabelecimento de objetivos e a formulação de hipóteses. Ambas pressupõem reflexão e controle consciente sobre o próprio conhecimento, opondo-se aos automatismos e mecanicismos típicos do passar do olho que muitas vezes é tido como leitura.

A capacidade de estabelecer objetivos na leitura é considerada fundamental quando pesquisamos. Dessa forma, quando refletimos a respeito de nosso próprio conhecimento, podemos, por exemplo, saber se já lemos o suficiente para saber uma matéria, pois estamos refletindo a respeito de nosso próprio saber. O leitor pesquisador maduro é o que consegue estabelecer seus próprios objetivos de leitura e quais serão as estratégias que irá empregar. A formulação de hipóteses é uma delas. Para isso, empregamos tanto nosso conhecimento prévio quanto os elementos formais mais visíveis e de alto grau de informatividade, como título, subtítulo, datas, fontes, ilustrações. Nossa leitura passará, então, a ter o caráter de verificação de hipóteses, para confirmação, ou refutação e revisão, num processo que envolve uma atividade consciente, autocontrolada que descarta o que não se confirma nas seqüências seguintes.

Não ignoramos que a forma de um texto, até certo ponto, determina os objetivos de leitura. No entanto, podemos estabelecer as semelhanças no modo de abordagem da leitura de um jornal e de um periódico científico. Logo na primeira página, o leitor do jornal faz uso de mecanismos para a apreensão rápida da informação, como se estivesse “escaneando”, a fim de depreender o tema dos diversos itens a partir das manchetes. Quando ele localiza um assunto de seu interesse, normalmente, faz uma leitura pré-seletiva que consiste em ler, por exemplo, os primeiros ou os últimos parágrafos, ou as tabelas, ou qualquer outro item que lhe chame a atenção, para obter uma idéia geral sobre o assunto. O leitor-pesquisador também age dessa forma. Quando pesquisa um tema de seu interesse num periódico científico, procura ler, no sumário, rapidamente os títulos dos artigos e dos respectivos autores, descartando alguns e verificando, por meio de uma leitura pré-seletiva, se deve ou não se aprofundar nos demais. O passo seguinte consiste em ler – dos artigos que possivelmente interessem – o resumo, as palavras-chave, a introdução e, em seguida, a conclusão ou as considerações finais e as referências bibliográficas. Finalmente, fará uma leitura meticulosa dos artigos que correspondam ao tema de sua pesquisa e a linha adotada.

O tipo de leitura meticulosa a que nos referimos é a que se faz com caderno e caneta e que já nos encaminha para a produção do texto de nossa pesquisa. Depois de selecionado um livro, um capítulo, ou ainda, um artigo, por meio da leitura pré-seletiva, não podemos perder tempo, lendo o material e prometendo que voltaremos a ele quando formos finalmente redigir nosso trabalho. Mãos à obra: um caderno universitário ou o teclado do computador facilitam muito nossa vida. É ler e anotar o que considerarmos importante. O cabeçalho, com a referência bibliográfica completa e a margem com a anotação cuidadosa da página que estamos lendo, a cópia do trecho que nos parece fundamental, tudo isso facilitará nossa vida no momento da redação. Seguimos as orientações de Eco (1977:35) que, ao tratar das fontes de um trabalho científico, frisa que “uma tese estuda um objeto por meio de determinados instrumentos. Muitas vezes o objeto é um livro e os instrumentos, outros livros”. Mais adianta, ele adverte que é “muito importante definir logo o verdadeiro objeto da tese, já que, desde o início, impõe-se o problema da acessibilidade das fontes” . Nesse sentido, é mais viável a leitura aprofundada de obras fundamentais que estejam ao nosso alcance do que ficarmos, por exemplo, tentando aprender francês para ler, por exemplo, Émile Benveniste no original.

Numa perspectiva mais ampla, já no enfoque enunciativo discursivo, Bronckart (1999) trata das produções de linguagem de um indivíduo como um componente dentre outras produções humanas, todas elas inseridas na organização social e com caráter histórico. Para Bronckart (1999:38), “toda língua apresenta-se como uma acumulação de textos e de signos nos quais já estão cristalizados os produtos das relações com o meio elaboradas e negociadas pelas gerações precedentes”.

Acrescenta, a seguir, que

... as produções de linguagem de um indivíduo, portanto, efetuam-se necessariamente, na interação com uma intertextualidade, em suas dimensões sociais sincrônicas e em suas dimensões históricas de traços de construções conceituais e discursivas (langagières) dos grupos sociais precedentes.

(Bronckart, 1999:38)

Finalizando, nossas breves considerações, alertamos que a relação que se estabelece, durante a leitura, entre autor e leitor é da responsabilidade de ambos. Como leitores, não podemos ir ao texto com idéias preconcebidas, com crenças imutáveis, pois dessa forma não conseguiremos ao menos enxergar as pistas formais que o autor vai semeando enquanto escreve. É importante que pensemos com o autor, apesar de termos consciência de que as suas condições de produção não são as mesmas que as nossas. É importante interagirmos com ele, porque se ficarmos escutando apenas nossa voz interior, nossas crenças e opiniões, atribuiremos ao autor afirmações e opiniões que pertencem a nós, leitores, nunca chegando a uma compreensão, ainda que parcial, de seu texto. Como autores, quando estivermos produzindo nosso texto, pelo fato de determos a palavra por um turno extenso, como num monólogo, devemos ser informativos, claros e relevantes. Amigos do leitor – provavelmente nosso orientador – não precisamos necessariamente escrever tudo o que sabemos sobre o tema, mas, de modo claro, aquilo que for realmente relevante para a delimitação que fizemos dele.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRONCKART, J. Atividade de linguagem, textos e discursos: Por um interacionismo sócio-discursivo. São Paulo: EDUC, 1999.

COSTE, D. Leitura e competência comunicativa. In: Texto, Leitura e Escrita. Campinas: Pontes, 1997.

ECO, H. Como se faz uma tese. São Paulo: Perspectiva, 1996.

KLEIMAN, A. Texto & Leitor: Aspectos Cognitivos da Leitura. Campinas: Pontes, 1995.

ORLANDI, E.P. Discurso e Leitura. Campinas: EDUNICAMP, 1988.

Comentário / Nota | CompartilharArtigo | Assinar