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LITERATURA DE CORDEL: A INSERÇÃO DOS GÊNEROS ORAIS NA SALA DE AULA. (2)

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17/06/2010
por SILVIO PROFIRIO

LITERATURA DE CORDEL: A INSERÇÃO DOS GÊNEROS ORAIS NA SALA DE AULA.

Silvio Profirio da Silva 1 Herica Clarice Borges de Souza 2 Renata Maria Santos Silva 3 Alunos do Curso de Licenciatura em Letras da UFRPE

O resultado de diversos estudos evidencia que um grande número de alunos brasileiros tem dificuldade em utilizar a linguagem oral, nas mais diversas situações de participação social. Tal situação provém da metodologia de ensino de língua portuguesa desenvolvida em inúmeras escolas, a qual dá ênfase à prática da escrita, em detrimento de um trabalho voltado desenvolvimento das modalidades de expressão oral dos alunos. Dentro dessa perspectiva, em tais escolas, o ensino de língua portuguesa está voltado ao estudo de normas e regras gramaticais, o que constitui o dialeto prestigiado pela sociedade. Essa metodologia tradicional vem sendo desenvolvida há décadas. Ela interfere nas competências lingüísticas de textualização e, sobretudo, na oralidade dos alunos. Nos últimos anos, percebemos uma mudança significativa nas práticas pedagógicas de língua portuguesa, o que gerou uma mudança no enfoque dado aos conteúdos e, acima de tudo, inclusão de novos conceitos no currículo escolar, como, por exemplo: a oralidade. Tal mudança se deve aos mais diversos estudos lingüísticos, dentre os quais, gostaríamos de destacar neste trabalho, os estudos da corrente Funcionalista, da Enunciativa, da Pragmática e da Análise do Discurso. Dentro desse contexto, a Lingüística contribuiu de forma significativa para o surgimento de novas abordagens didáticas. A partir desses estudos, houve a elaboração dos eixos de língua portuguesa, por meio dos quais a oralidade passa a fazer parte dos currículos escolares, tendo como objetivo estimular o desenvolvimento da competência comunicativa do aluno. Isto é, formar um falante competente, que produza textos (escritos e, especialmente, orais) adequados à compreensão de seus interlocutores. Para tanto, foram inclusos diversos gêneros textuais nas metodologias de ensino de língua portuguesa. Entre eles, destacamos a literatura de cordel como recurso didático, para se trabalhar o desenvolvimento da oralidade. Ou seja, levar o aluno a usar a língua de forma variada e, principalmente, adequada ao contexto comunicativo de uso. Este trabalho tem como objetivo abordar as contribuições

Literatura de Cordel e oralidade: uma relação íntima

A literatura de cordel é um tipo de poesia de caráter popular. Ela tem sua origem na Península Ibérica, chegando ao Brasil por intermédio dos colonizadores. Originalmente, era produzida apenas oralmente, mas após alguns anos, passou a ser produzida de forma escrita e impressa em folhetos. Seus versos são escritos em rimas e algumas vezes com ilustrações, que são hoje chamadas de xilogravuras. Seu nome provém da forma como esses folhetos eram expostos e comercializados em Portugal, onde eles eram pendurados em cordões (denominados de cordéis em tal país). Inicialmente, instalou – se na Bahia e, em seguida, ela se disseminou pela região Nordeste, o que fez com que ela adquirisse características de tal região. Um dos aspectos mais relevantes desse tipo de literatura é relação intrínseca com a oralidade, uma vez que é construída como base em relações sonoras (rima, ritmo, etc.). Assim, esse tipo de literatura tem forte tendência à oralidade. Isso faz com que possamos considerá - lo como um intermédio entre a linguagem oral e escrita, na medida em que consiste num texto escrito para ser lido. Nessa perspectiva, o cordel consiste numa arte que se manifesta pela palavra escrita ou oral. As marcas da oralidade estão presentes nesse texto, visto que traz características comuns ao discurso oral, que também estão presentes no discurso escrito. Ele também possui uma relação intrínseca com a história, visto que os dados históricos atravessam a vida do autor. Seus versos abordam desde temáticas e problemáticas atuais até fatos históricos. Assim, podemos considerá – lo como atemporal, no sentido de não se limitar a uma época específica. E, principalmente, podemos concebê – lo como um relato histórico por meio da linguagem (escrita e oral). Nesse contexto, esse tipo de literatura é construída a partir da historicidade, pois não há texto literário sem um contexto histórico. O texto literário, numa perspectiva mais ampla, expressa uma noção da realidade. Isto é, ele tem como objetivo captar a realidade. Ele reflete um dualismo entre o geral e o particular, ao mesmo tempo. Primeiramente, temos alguém que fala em nome de si mesmo (voz pessoal e subjetiva), mas seus discursos representam os anseios da coletividade. Por esse motivo, é necessário perceber o texto literário como geral e particular, simultaneamente. Daí podemos conceber a literatura como algo não isolado. Pelo contrário, ela consiste num produto da sociedade e como tal não pode ser percebida fora do âmbito social. Diante disso, percebemos o quanto a literatura de cordel está atrelada à realidade e, conseqüentemente, às práticas sociais. Nesse tipo de texto, o nordeste está impregnado em seus versos, na medida em que ele trabalha com base em diversas temáticas e problemáticas de tal região. Tal situação acontece pelo fato das mudanças de valores, de opiniões e de fatos influírem diretamente na produção literária. O que faz com que consideremos a literatura de cordel como uma prática sócio-discursiva. Como a literatura de cordel é um gênero que explora características da linguagem oral, consideramos que o trabalho de leitura desse tipo de literatura propicia o desenvolvimento da competência comunicativa do aluno. Ou seja, isso vai possibilitar que ele adéqüe a linguagem à situação comunicativa. Contudo, esse trabalho de leitura oral não propicia apenas a produção de textos orais, como também escritos. Na sociedade atual, a escrita e a oralidade são competências lingüísticas essenciais. Mas esse posicionamento só surgiu a partir de uma nova concepção de língua, que surgiu em decorrência do desenvolvimento de diversos estudos lingüísticos. Tais estudos propiciaram o surgimento de novas concepções de língua ao longo do tempo, o que influiu diretamente na prática de ensino de língua portuguesa. Diante desse cenário, entende – se a língua em sua multiplicidade de usos. Atrelado a isso, tem – se como objetivo desenvolver a competência comunicativa do aluno, a fim de formar um falante competente (que saiba adequar sua fala ao contexto comunicativo de uso) e não um aluno que saiba regras gramaticais, apenas. Assim, a literatura de cordel possibilita a inserção de gêneros orais na sala de aula e, acima de tudo, aprimora a competência comunicativa do aluno. No entanto, ela não só desenvolve um falante competente, como também um leitor competente. A inserção da oralidade nos currículos escolares representa formar um falante competente não só dentro da escola, mas, sobretudo, fora da escola. Para isso, é necessário inserir os alunos em diversas situações de comunicação oral, o que vai propiciar um maior domínio dos recursos expressivos da linguagem. Dito de outra forma, isso tornará os alunos como usuários competentes da língua. Outro aspecto relevante acerca desse tipo de literatura é que ele consiste num instrumento de fundamental importância para reflexão acerca da variação lingüística. Deve – se à Sociolingüística as das mais diversas teorias acerca de tal questão. Por intermédio de seus estudos, ela contribuiu para o esclarecimento das variedades lingüísticas, sobretudo, no que tange o ensino de língua portuguesa. A leitura oral dos textos dos folhetos da literatura de cordel desenvolve os mais diversos aspectos da expressividade, tais como a entonação, a fluência, a pontuação, o ritmo da frase, etc. Além disso, ela contribui para a desinibição. Entretanto, ela não contribui apenas para a capacidade de falar, mas também para o ato de escutar o outro. Diante desse aspecto, a leitura oral dos folhetos da literatura de cordel não se limita a pronuncia de palavras e ao tom de voz, mas ao ato de ouvir. Mas, sobretudo, o que destacamos neste trabalho é o fato desse tipo de literatura levar os alunos a usar as variedades da linguagem, adequando – as às circunstancias comunicativas. Em outras palavras, ela os leva a participar de situações de intercambio oral, o que inclui atos de fala e escuta. Em nosso entendimento, a sala de aula consiste num espaço propício para discussão e, especialmente, para inserção de múltiplas linguagens (escrita, falada, verbal, não – verbal, etc.). Diante desse quadro, se faz necessário a inserção das linguagens alternativas no contexto educacional. Elas podem ser conceituadas como novas formas de apresentar conteúdos, tendo como base suportes variados, tais como: cinema, imagens, ilustrações, jogos, música, quadrinhos, teatro, diversos gêneros textuais, etc. Dentre as quais, gostaríamos de destacar a literatura de cordel, como suporte didático, para diversos objetivos. Nesse sentido, percebemos como a literatura de cordel está diretamente relacionada à prática de produção escrita e, principalmente, oral.

Referências

GOMES, Gustavo Manoel da Silva; NETO, Luiz Domingos da Nascimento. A cultura afro brasileira no saber escolar contemporâneo: articulando histórias, linguagens, memórias e identidades. Disponível em:http://www.encontrosdevista.com.br/Artigos/A_CULTURA_AFRO_BRASILEIRA_NO_SABER_ESCOLAR_CONTEMPORANEO_ARTICU.pdf. Acesso em: 10/01/2010.

LANNI, Octavio. Língua e sociedade. In: VALENTE, André (org.). Aulas de português: perspectivas inovadoras. Petrópolis: Vozes, 2000. OLIVEIRA, Ana Tereza Pinto de. Minimanual compacto de redação e interpretação de texto: teoria e prática. São Paulo: Rideel, 2003. PASSOS, Célia; SILVA, Zenaide. Prática de linguagem oral e escrita: língua portuguesa. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2001. PINHEIRO, Elder; LÚCIO, Ana Cristina Marinho. Cordel na sala de aula. São Paulo: Duas cidades, 2001. SILVA, Antonio de Siqueira; BERTOLIN, Rafael; OLIVEIRA, Tânia Amaral. Linguagem e vivencia: língua portuguesa. São Paulo: Ibep, 2001. VICTTOR, J.; SCHUABB, Paula. História do cordel. Disponível em: http://www.ablc.com.br/historia/hist_cordel.htm. Acesso em: 21/04/2010.

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