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LITERATURA DE CORDEL: UMA LINGUAGEM ALTERNATIVA NA PRÁTICA DA INTERDISCIPLINARIDADE.

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17/06/2010
por SILVIO PROFIRIO

LITERATURA DE CORDEL: UMA LINGUAGEM ALTERNATIVA NA PRÁTICA DA INTERDISCIPLINARIDADE.

Silvio Profirio da Silva 1, Jacineide Gabriel Arcanjo2, Carmen Renata Santana de Lucena3,Cibeli Oliveira de Souza 4 , Wanessa Ewen de Araújo 5 , Kalhil Gilbran Melo de Lucena6 , Alexandro Cardoso Tenório 7

INTRODUÇÃO A linguagem, em suas inúmeras formas, possibilita que os indivíduos interajam entre si e com meio social que os cerca, emitindo e recebendo mensagens, expressando suas idéias e emoções, etc. Ela pode ser: falada, escrita, mímica, cromática, plástica, musical, telepática e iconográfica. O desenvolvimento de diversos estudos lingüísticos propiciou o surgimento de inúmeras hipóteses e teorias acerca dos mais diversos aspectos da linguagem, em suas inúmeras

 formas.

“É óbvio que a lingüística, a filosofia da linguagem, a sociolingüística, a etnolinguistica, a semiótica contribuíram muito para o esclarecimento da linguagem, sob todos os seus aspectos. O giro lingüístico em curso no século XX abre outras e novas possibilidades de reflexão e descobertas sobre os mais diversos aspectos da linguagem (LANNI, 2000)”.

Tudo isso contribuiu significativamente para deslocamento dos princípios norteadores do ensino nas mais diversas áreas do saber. A partir desse cenário, surgem as linguagens alternativas. Elas podem ser definidas como novas formas de apresentar conteúdos, tendo como base suportes variados, tais como: cinema, imagens, ilustrações, jogos, música, quadrinhos, teatro, diversos gêneros textuais, etc. Em outras palavras, tais linguagens englobam desde os atos de fala até os mais diversos suportes, como, por exemplo: papel, tela, imagens, etc.

Nos últimos anos, identifica-se a utilização de novos métodos e técnicas para o ensino, pautadas em diversas tecnologias, sejam elas contemporâneas ou tradicionais. Ou seja, o uso de linguagens alternativas e novas formas de apresentar conteúdos. Entre elas, destacamos aqui, a literatura de cordel, como linguagem alternativa para promover significado ao ensino. Este trabalho tem como objetivo relatar as experiências vivenciadas na Formação de Literatura de Cordel, promovida pelo do Programa Conexões de Saberes da Universidade Federal Rural de Pernambuco - UFRPE, tendo por pretensão propiciar uma maior compreensão de como é construído o saber por meio de linguagens alternativas. Nesse caso, a literatura de cordel.

A literatura de cordel consiste numa poesia de caráter popular, que originalmente era realizada apenas oralmente. Contudo, após alguns anos, ela passou a ser realizada de forma escrita ou impressa em folhetos. Seus versos são escritos em rimas e algumas vezes com ilustrações, que são hoje chamadas de xilogravuras. Um dos pontos mais relevantes acerca desse tipo de literatura que destacamos aqui é a sua relação com a perspectiva interdisciplinar. A interdisciplinaridade consiste na junção de componentes curriculares ou áreas de conhecimento diferentes, tendo como objetivo a construção do conhecimento conjunto. Entretanto, a interdisciplinaridade não se restringe apenas a junção de áreas de saber, mas também à prática de abordar conhecimentos que nascem da, ou que se voltam para a realidade do aluno. Em outras palavras, abordar temáticas atreladas à realidade e aos problemas da vida cotidiana. Dentro dessa perspectiva, a literatura de cordel consiste num recurso de comunicação popular, uma vez que aborda fatos do dia-a-dia das pessoas e, sobretudo, retrata aspectos culturais de determinada região. A cultura consiste em tudo que o homem faz, seja pensamento ou ação. Assim, a cultura retrata as mais diversas formas por meio das quais os homens se relacionam em seu meio social. Como, por exemplo, essa literatura propaga os aspectos folclóricos, na medida em que expõe diversos costumes, personagens (sejam eles imaginários ou reais), crenças, fábulas, histórias e tradições. E, para tanto, se utiliza de uma linguagem variada. Em alguns casos, utilizando-se do humor e da sátira, para expor seus objetivos. Isto é, para abordar diversas temáticas do cotidiano das pessoas.

Essa temática despertou nosso interesse durante a participação da oficina de Formação de Literatura de Cordel. Tal oficina faz parte das atividades de formação continuada do Programa Conexões de Saberes, da UFRPE. Conexões de Saberes é um programa de extensão universitária, cujo principal objetivo é integrar o saber acadêmico e o saber popular, contribuindo para a permanência qualificada de estudantes de origem popular no meio acadêmico. Assim, o programa, com suas formações busca problematizar as diversas estratégias para promover o diálogo entre o saber acadêmico com os saberes que marcam as comunidades populares. Além disso, esse programa contribui para a formação acadêmica de seus bolsistas, na medida em que os envolve no contexto de diversas atividades acadêmicas, tais como: desenvolvimento de oficinas, elaboração de artigos e projetos, etc.

DISCUSSÃO A literatura de cordel está atrelada com interdisciplinaridade, já que aborda diversas temáticas e, sobretudo, novas abordagens e formas de ensino. “As alternativas pedagógicas, no sentido de encontrar soluções para a melhoria da qualidade das aulas, são inúmeras e o esforço do professor no sentido de adaptar metodologias de ensino com conteúdos específicos é grande (FONSÊCA, 2008)”. Além disso, por meio dela temos a possibilidade de trabalhar vários temas transversais (temas que levam a refletir acerca de questões sociais). Diante desses aspectos, a literatura de Cordel trabalha numa perspectiva de junção de fatores, na medida em integra o conhecimento. Partindo desse pressuposto, a literatura de Cordel como linguagem alternativa nas práticas de ensino é um recurso significativo, já que propicia diversos resultados positivos, tais como:

• Desenvolvimento da oralidade, visto que a poesia é um gênero que explora características da língua oral. Esse aspecto é bastante relevante, pois a maior parte das metodologias de ensino de língua portuguesa dá ênfase na prática da escrita, em detrimento da oralidade. Durante várias décadas, eram utilizadas metodologias de ensino de língua portuguesa que davam ênfase aos aspectos gramaticais, em detrimento das práticas de textualização e de argumentação. Em outras palavras, havia uma grande ênfase tradicional dada à gramática, voltando - se para a classificação gramatical (análise e classificação de termos), apenas. Dentro desse contexto, o ensino de língua portuguesa ocorria em função do reconhecimento das normas/regras, o que constituía o dialeto de prestígio. Essa metodologia de ensino tradicional interferia nas competências lingüísticas de textualização e, sobretudo, na oralidade dos alunos. Na sociedade atual, a escrita e a oralidade são competências lingüísticas primordiais. Mas o surgimento desse posicionamento só surgiu a partir de uma nova concepção de língua, a qual surgiu em decorrência do desenvolvimento de diversos estudos lingüísticos. Tais estudos propiciaram o surgimento de novas concepções de língua ao longo do tempo, o que influiu diretamente na prática pedagógica de ensino de língua portuguesa. Diante desse cenário, entende – se a língua em sua multiplicidade de usos. Atrelado a isso, tem – se como objetivo desenvolver a competência comunicativa do aluno, a fim de formar um falante competente (que saiba adequar sua fala ao contexto comunicativo de uso) e não um aluno que saiba regras gramaticais, apenas. Assim, a literatura de cordel possibilita a inserção de gêneros orais na sala de aula e, acima de tudo, aprimora a competência comunicativa do aluno.

• A inserção dos temas transversais nos conteúdos escolares. Essa inserção tem por objetivo propiciar condições para levar o aluno a superar uma visão restrita de mundo, na medida em que possibilita que ele compreenda a complexidade da realidade que o rodeia e, acima de tudo, propiciar uma aprendizagem significativa. E, para isso, inclui as questões sociais no currículo escolar. Os temas são vários, tais como: os direitos humanos, a ética, a questão ambiental, a pluralidade cultural, o respeito à diversidade, a sexualidade, etc. A utilização desses temas na sala de aula representa um dialogo entre o aluno e a realidade social que o cerca. Tal diálogo propicia uma postura critica para atuação na realidade. Diante desses aspectos, a inserção dos temas transversais nos conteúdos escolares representa a construção do conhecimento de forma crítica e engajado na realidade.

• O desenvolvimento da leitura crítica. Durante muitos anos, as práticas de leituras desenvolvidas em muitas escolas estavam distanciadas da realidade. Diante desse contexto, as práticas de leituras desenvolvidas trabalhavam uma leitura como decodificação. Em decorrência disso, tal prática não fornecia subsídios, para o desenvolvimento de uma consciência crítica. “Para fazer florescer o leitor crítico, é preciso alçar a leitura à condição de instrumento de conscientização capaz de aguçar a criticidade do aprendiz, habilitando-o a compreender as contradições existentes na sociedade. (LIMA, 1995).” Por essa razão, concebemos a literatura de cordel como recurso para se trabalhar a leitura engajada à realidade. O que vai propiciar o desenvolvimento da leitura crítica e, por conseguinte, o exercício da cidadania. “Ler, compreender, interpretar, criticar sua literatura é um exercício de cidadania, através do qual, estética – histórica – socialmente, ele pode interferia na sociedade como sujeito crítico e criador (LIMA, 1995).” • A imagem e construção de sentidos. Durante muitos anos, o conceito de texto estava restrito à seqüência de palavras, apenas. A partir do desenvolvimento dos estudos lingüísticos, ocorre uma mudança na concepção de texto, e tal conceito passa a englobar não apenas as palavras, como também a imagem. Diante desse quadro, surgem textos que conjugam diversas linguagens, como, por exemplo: a verbal e a não – verbal. As imagens expressam graficamente informações que envolvem fatos sociais. Assim, podemos considerá – las como um texto crítico. Assim, as xilogravuras são um recurso, para se trabalhar a leitura crítica de imagens.

• Estímulo à imaginação e desenvolvimento do raciocínio do aluno, na medida em que ele é levado a associar o cordel utilizado e a temática em foco. “O leitor de cordel é estimulado a imaginar as situações, não tem as imagens prontas como nos livros infantis (VIANA, 2006)”.

• Criação de atitudes críticas e reflexivas no aluno, uma vez que leva o aluno a refletir sobre as temáticas abordadas. Dessa maneira, esse recurso leva o aluno a refletir, problematizar, reformular conceitos, rever posturas, relacionar e, especialmente, superar uma visão restrita de mundo. Com isso, altera – se a as relações tradicionais de ensino – aprendizagem, a qual dá ênfase aos aspectos decorativos.

• Recurso didático mais atrativo e mais dinâmico, uma vez que apresenta de forma lúdica diversos conteúdos do livro didático, por conta de diversos fatores, como, por exemplo: a rima, a arte, a ilustração (xilogravura), a musicalidade. E tudo isso, sem deixar de lado o contexto crítico desse recurso. Desse modo, o aluno terá uma maior motivação, por que perceberá diversos temas de seu interesse, de sua realidade sendo abordados nos recursos didáticos. O que fará com que ele se torne mais participativo e questionador. “Considerando que esta modalidade de cultura se apresenta de várias formas, oral, escrita, declamada e cantada, entende – se que ela apresenta inúmeras possibilidades pedagógicas. (SANTANA, 2006)”.

• Inserção do aluno no contexto da poesia e da arte popular, o que promove o desenvolvimento da expressão artística e corporal. “Temos observado que em toda classe há sempre dois ou três alunos que têm vocação para a poesia popular. Inclusive gente que já trabalha com o rap e descobriu um “parentesco” com o cordel (VIANA, 2006)”.

MATERIAL E MÉTODOS

Para a realização desse trabalho, foi feito um levantamento bibliográfico acerca da Literatura de cordel, relativo à sua história e à sua aplicação em sala de aula. Em outras palavras, foi realizado um levantamento sobre publicações já existentes acerca da temática em foco, tais como artigos e monografias, havendo a leitura e discussão de entrevistas publicadas com professores que já utilizam esse recurso, como suporte didático. Com isso, pretendemos analisar as possibilidades de aplicação pedagógica desse recurso nos contextos educacionais. Adotou – se como método a pesquisa participante, na qual o pesquisador esta imerso no objeto a ser pesquisado, sendo por ele influenciado. A execução da formação de Literatura de Cordel ocorreu da seguinte forma: Primeiramente, pelo contato dos bolsistas com folhetos da literatura de Cordel e estudos bibliográficos acerca da história dessa literatura. Em seguida, se deu o momento de produção, no qual os bolsistas observaram como é realizada a confecção de um cordel. E, por último, uma reflexão acerca de como tal recurso vem sendo aplicado na educação.

RESULTADOS Diante dos estudos realizados, podemos enfatizar que a literatura de cordel ainda enfrenta certo preconceito, pelo fato de ser um gênero de caráter popular (produzido pelo povo). “A literatura de cordel, assim como quase tudo que vem diretamente da cultura popular é, com freqüência, discriminada e tratada como algo de menor importância, no contexto cultural mais elitizado, mais socialmente aceito no Brasil (LINHARES, 2006)”. No entanto, essa situação está mudando. Nos últimos anos, muitos professores têm recorrido a esse tipo de literatura, com vistas a conciliar fatores interdisciplinares e trabalhar temáticas transversais. E, acima de tudo, pelo fato desse tipo de literatura apresentar ao aluno outro recurso didático, além do livro didático. Dito de outra forma, levando ao aluno outra fonte de informação, a qual não traz conteúdos prontos.

Diante desses aspectos, a utilização da literatura de cordel como suporte na aprendizagem do aluno representa a inserção de novas tendências didáticas no ensino. Tais tendências integram os mais diversos conteúdos escolares, com os aspectos culturais dos alunos. “O desenvolvimento de atividades interdisciplinares que promovem tanto a aprendizagem de conteúdos significativos, quanto à aproximação dos alunos à cultura popular (SANTANA, 2006)”.

Com base nos autores consultados, foi possível avaliar como o cordel está inserido no processo de ensino-aprendizagem. Dessa forma, a formação atingiu seus objetivos, visto que proporcionou uma maior reflexão sobre sua utilização como um recurso alternativo na prática pedagógica e, principalmente, sobre o uso de novas metodologias que levam o aluno a construir seu próprio conhecimento. Essa perspectiva traz focaliza o papel do professor de mediador entre a realidade e saber, que surge como diferencial na atual sociedade. Além disso, nos propiciou perceber como tal recurso possibilita as práticas de interdisciplinaridade na ação docente.

Nesse sentido, o uso da literatura de cordel no processo de ensino-aprendizagem representa a inserção de ações pedagógicas voltadas á construção do conhecimento de forma crítica e atrelado à realidade.

AGRADECIMENTOS Este trabalho foi realizado com base no esforço coletivo. Devido a isso, gostaríamos de agradecer a algumas pessoas que colaboraram em sua construção. Primeiramente, agradecemos a Jacineide Gabriel Arcanjo, que fez diversos comentários, sugestões e revisões para a melhoria deste trabalho. Agradecemos também ao Programa Conexões de Saberes, coordenado pelo Professor Alexandro Cardoso Tenório, por ter nos inserido no contexto de produção de trabalhos acadêmicos.

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GASPAR, Lúcia. Literatura de Cordel. Disponível em: http://www.fundaj.gov.br. Acesso em: dia mês ano. 06/02/2010

GOMES, Gustavo Manoel da Silva; NETO, Luiz Domingos da Nascimento. A cultura afro brasileira no saber escolar contemporâneo: articulando histórias, linguagens, memórias e identidades. Disponível em:http://www.encontrosdevista.com.br/Artigos/A_CULTURA_AFRO_BRASILEIRA_NO_SABER_ESCOLAR_CONTEMPORANEO_ARTICU.pdf. Acesso em: 10/01/2010.

LANNI, Octavio. Língua e sociedade. In: VALENTE, André (org.). Aulas de português: perspectivas inovadoras. Petrópolis: Vozes, 2000.

LIMA, Aldo de. Literatura em crise na vida e na escola. In: Investigações. Lingüística e Teoria Literária. Programa de Pós-Graduação em Letras e Lingüística, UFPE. Vol. 5, p. 101-109, 1995.

LINHARES, Thelma R. S. Reflexões. Disponível em: http://www.camarabrasileira.com/cordel90.htm. Acesso em: 16/09/2009.

SANTANA, Bruna B S. Interdisciplinaridade em sala de aula. Disponível em: http://www.camarabrasileira.com/cordel201.htm. Acesso em: 16/09/2009.

SILVA, Antonio de Siqueira; BERTOLIN, Rafael; OLIVEIRA, Tânia Amaral. Linguagem e vivencia: língua portuguesa. São Paulo: Ibep, 2001.

VIANA, Arievaldo. Acorda Cordel. Revista Nossa História, São Paulo, nº 33, p. 8, jul. 2006.

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