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Partimos da realidade: uma exposição de roupas idealizadas por alunos do Senac. Inventamos a realidade: a classe foi dividida em grupos e cada grupo criou uma história para uma determinada roupa. Crimes, mortes, maldições, feitiços...reciclagem e outras bobagens.

Tínhamos, então, uma porção de episódios separados; faltava a unidade. O grande problema seria o modo como poderíamos conservar as peculiaridades de cada episódio e, ao mesmo tempo, juntar tudo aquilo em uma novela que tivesse o mínimo de uniformidade.

Alguém sugeriu que usássemos uma estrutura semelhante a do Decamerão de Bocaccio. Assim como no Decamerão, teríamos vários personagens narrando feitos diversos. No nosso caso, cada personagem representaria o episódio criado por um grupo. Diferente do Decamerão, entretanto, resolvemos que todos os episódios seriam recontados por um narrador-personagem. Com isso, conseguiríamos evitar o objetivismo de uma narração em terceira pessoa.  Deixaríamos de lado o narrador onisciente que nunca erra passando a um ser inconstante e, portanto, que sempre pode ser colocado em dúvida.  Além disso, encobrimos todas as passagens que pudessem soar exageradas ou incoerentes sob o véu de um narrador que gostasse mesmo de ser exagerado e não ligava muito para parecer coerente.

Nosso narrador, que nem se dá ao trabalho de dizer seu nome, é um velho aposentado que, sem ter o que fazer e sem gostar de resolver palavras cruzadas, passa o tempo escrevendo. Sua fixação única é a filha Julie, a mesma personagem de todos os seus escritos. Em “Reciclagem e outras bobagens” ele tenta narrar uma catastrófica exposição de moda ocorrida nos Estados Unidos. Após ouvirem algumas explosões, um grupo de participantes fica preso na construção que abrigava a exposição. Desesperados, resolvem contar histórias para se acalmarem. O tema das histórias não poderia ser outro: a roupa.

Só que o narrador não consegue se manter afastado daquilo que conta. Sempre tem de comentar, sempre tem de criticar. E, sobretudo, sempre tem de ser polêmico. Como quando afirma que a cultura não passa de uma muleta psicológica criada pelo homem para se distanciar dos problemas práticos que realmente importam. Afinal, ele prefere andar com seus próprios pés, ainda que cambaleantes. Mal sabe ele que escrever, no seu caso, nada mais é que outra muleta.

Dá para confiar em um narrador desses? Com esse perfil, fica difícil. Como, então, saber qual é o limite em que devemos acreditar na história que ele conta? De resto, devemos observar que a história final pode ser vista como um produto de diversos relatos. Participantes da exposição contam para uma pequena platéia; Julie ouve e conta para o pai; o pai ouve e reconta tudo sob a forma de uma novela. E como quem conta um conto aumenta um ponto...

A questão pode ir ainda mais longe se pensarmos que cada um dos episódios pode ter sido inventado na ocasião por cada um dos personagens que se encontravam presos numa construção em ruínas. Ou que o narrador, depois de ouvir o relato, preferiu por conta própria fazer algumas alterações.

Pior ainda se imaginarmos que um velho desocupado poderia muito bem ter inventado tudo que supostamente aconteceu. Nem sabemos ao certo se Julie existe mesmo.

Mas melhor pararmos com as reflexões e deixar que o leitor solucione sozinho o que parece não ter resposta. 

O que importa ressaltar é que desse modo procuramos criar uma tensão básica: aquilo tudo de fato ocorreu ou não? Em termos técnicos: relato ou narrativa?

Agora voltando ao início podemos nos questionar: será mesmo que aquelas roupas da exposição dos alunos do SENAC eram apenas roupas da exposição dos alunos do SENAC? Não poderia haver nada, além disso? A ficção não poderia ser realidade? Ou a realidade uma grande ficção?

Seja como for, não podemos negar a realidade de um apoio que foi imprescindível: nossa professora Nílvia. Obrigado por sempre ouvir o grupo e muitas vezes dar atenção a idéias que não eram nem mesmo reciclagem: não passavam de outras bobagens.

  Bruno Takahashi

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